Mais valores e menos likes

Quando dei início na corrida de rua, minha única e exclusiva preocupação era prestar atenção nos benefícios que esse esporte fazia em meu corpo e tentar externa-los para o mundo. Não havia necessidade de cumprir um pace ou distância, tampouco o selfie ou transmissão ao vivo no final do treino: a corrida deveria ser funcional para mim – e é só.

A corrida tinha como papel me colocar nos eixos (ou pelo menos tentar) e tinha como obrigação me tornar uma pessoa mais consciente sobre meu corpo, necessidades, vontades e ambições como ser humano. A corrida precisava me tornar uma pessoa melhor como algo primário, juntamente em melhorar minha saúde.

Mas claro que, ao passar do tempo, com a alta popularização do esporte no Brasil e a facilidade que muitas pessoas encontraram em se ‘jogar’ na corrida, as coisas mudaram bastante. Chocando-se com os objetivos de outrora, a regra agora é fazer ser visto na corrida – e não senti-la da maneira mais pura. A regra agora é ser influenciador sem ao menos influenciar a própria vida ou construir sua própria história com os próprios pés.

Não importa se você diz ao mundo que a corrida não precisa ser competitiva para você: de algum jeito, farão com que você entre na onda ou ‘na nóia’, juntamente com a necessidade de se provar, de ser reverenciado pelos seus feitos e porque não ”ganhar” algum proveito em cima disso. Primeiro, você se torna famoso. E em seguida, você se torna um corredor. Hoje a saúde está em segundo plano, o que vale mais é ficar observando o quanto a colega correu no final de semana e tentar, a todo custo, dobrar a distância, ou o ritmo, ou correr uma prova mais cara e fazer com que as atenções se voltem para você.

Não me levem a mal, eu ainda acho que a melhor coisa que poderia ter acontecido no nosso Brasil é essa popularização da corrida, a grande e maravilhosa comunicação que as marcas hoje tem com todo o público, a inserção da mulher em qualquer território, a facilidade de se integrar a esse universo e de poder ser corredor em qualquer lugar no país. Sim, tudo isso é lindo, nobre e nos faz se aproximar pouco a pouco dos grandes países que tem a corrida de rua como um dos principais esportes e sente orgulho disso. Para mim, todos os quesitos comentados são incríveis.

Entretanto, ao mesmo tempo que são positivos, eles também trazem um egocentrismo doentio, uma busca pela fama que cansa de observar e a desmotivação de muitos que não querem se encaixar nesse padrão e só querem apenas correr para si mesmos. Não para o outro ou pelo outro: para si e para seu próprio benefício.

Já pararam para pensar que lá atrás o tênis era a ultima preocupação de um corredor? Ou o fato dele usar o último lançamento de vestuário? Ou o fato de que não haviam celulares e se haviam, não eram para denunciar o mundo que fizeram um treino? Bato no peito para defender sim aqueles que usam de sua imagem para influenciar os outros. Gosto sim desse tipo de pessoa porque me inspiram pela realidade e pela verdade passada. Uns dizem sem medo que correm para ser velozes e outros para garantirem uma barriga tanquinho e em ambos os casos, eu acho válido o posicionamento, desde que não estimule uma luta frenética de quem o vê para entrarem no mesmo universo.

Sou a favor de um universo de corrida sem picuinhas, sem ninguém querendo passar a perna ou ninguém verificando o pace que você fechou a maratona. Sou a favor de mais inclusão e não mais negatividade, menos gente apontando o dedo para mostrar seus seguidores quando se esquecem que o esporte é algo muito maior do que mil, do que uma foto, do que um tênis novo ou de uma quebra de recorde.Sou a favor de mais gente levando adianta em qualquer pace e com qualquer obstáculo. Sou a favor de que não julga, de quem promove o bem nesse mundo e luta por ele.

O esporte fica, as nossas conquistas passam…O que fizemos nessa jornada e o quanto essa jornada nos tornou melhores pessoas, na minha opnião, é a única coisa que importa. O resto cai no esquecimento, mas seu bom caráter e seus bons valores, jamais.

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