Não deixe a chama se apagar

Fui pega de surpresa e quando percebi, mal conseguia correr 10 metros. Muita dor, incertezas e medos – e uma maratona pela frente. A quinta, para ser mais precisa.

Na cabeça, as dúvidas sobre realizar ou não a prova, sobre contar isso ao mundo como forma de me ajudar a superar ou de simplesmente jogar tudo para o alto e abrir mão do que já foi conquistado. Vivi tempos sombrios, achei que jamais voltaria a correr, mas tive ( e tenho!) bons profissionais ao meu lado que me ajudaram a não só voltar a correr, mas ter a confiança que sempre tive.

A corrida entrou na minha vida como meio de me ajudar a ficar mais saudável, mas com o tempo, com disciplina, primeiras medalhas, trófeus, amizades e sentimentos que esse esporte nos proporciona, percebi que é um estilo de vida, algo que agora define quem sou e os passos que devo seguir. A corrida tem um profundo poder de transformação e isso é algo incrível. Dizer “eu sou um corredor” vai muito mais do que calçar um tênis: significa que você lida com as situações da vida com força, disciplina, perseverança, luta pelo que quer e que sobretudo, acredita que pode superar seus próprios limites. Não os que constroem, mas limites que você impôs a si mesmo.

Por encarar a corrida dessa força, não foi fácil ter que deixar de praticá-la ou entrar em uma maratona com receio que voltar para casa ainda pior. Fui e fiz a minha quinta maratona no Rio sem dores, mas sem conseguir me doar 100%. Entretanto, mesmo na pior situação em que me encontrava, eu cumpri a meta, voltei para casa com uma medalha da minha 5ª maratona aos 24 anos. Fiz o que havia me proposto e embora não tenha sido o que eu imaginava há meses atrás, eu fui e fiz. Pronto: eu era uma vencedora!

Tudo isso mexeu com meu ego, tudo isso fez com que eu voltasse a questionar o por quê treinar 30 km em um final de semana que eu poderia dormir já que estou cansada de trabalhar, o por quê de abrir mão de ver amigos para fazer um treino intervalado, o por quê de dizer não a um pote de brigadeiro. Questionei tudo que já fiz e cheguei a conclusão de que tudo isso para mim nunca fui difícil e que tudo isso faz de mim o que sou.

A Kauana maratonista, a Kauana que caiu milhões de vezes mas aprendeu a levantar ainda mais forte, a Kauana que tem muitos medos, mas que com a corrida aprendeu a deixar tudo para trás e acreditar mais em si, a Kauana que tem uma chama acesa dentro dela e que sabe que com persistência e muita luta, tudo pode ser feito nessa vida, basta querer.

Após essa reflexão, creio que só me resta deixar um apelo: não deixe a chama da corrida se apagar dentro de você. Nunca! Não deixe que nada estrague a sua paixão por esse esporte, a sua vontade de levantar cedo para ir bater planilha, a sua determinação de ir para a musculação após um dia de trabalho ou a sua garra na fisioterapia para voltar a correr 100%. Não deixe que obstáculos lhe impeçam de ir atrás dos seus sonhos. Seja mais. Faça mais. E nunca desista de você!