Para o currículo, mais uma maratona e para minha vida, uma nova transformação

Inspirada, entrei em “formação”

E fui em buscar de dar o meu melhor em outra maratona. Para ser mais específica: a quinta. Dá para acreditar? É, nem eu acreditava…Mas era. Uma, duas, três, quatro e agora cinco. A minha quinta maratona para a história e a terceira na Cidade Maravilhosa, o grande amor da minha vida.

No último volume, prestes a seguir em mais uma Maratona Caixa da Cidade do Rio de Janeiro, estava a música que embalou os meus treinamentos diários – e que me fez me sentir poderosa e confiante para ir atrás da minha medalha. Tocava “Formation” que na tradução fica “formação”, hit intensamente da artista Beyoncé com mensagens de empoderamento feminino, sobre a importância de voltar e dar valor às suas origens, ser independente e comandar a própria vida. Certamente que não havia mais nada melhor para começar essa maratona. Antes de prosseguir, ouçam e vejam:

Eram seis horas da manhã e nós chegávamos cedo na Praça do Pontal, localizado no Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste da cidade. Lá se dá a largada para os 42km e como eu sei bem, é um local inspirador. O mar, ar, pessoas e o ambiente inspiram e motivam tanto que fica até difícil de explicar… Só quem já alinhou para essa prova sabe do que eu estou falando. Sim, um misto de sentimentos que poucos sentirão na vida. Poucos, mas bons. Poucos, mas valentes – e não guerreiros. Como sempre falo: maratona é um ato de fé e de coragem – e não de heroísmo. Ninguém se torna herói por correr maratona, tampouco merece um monumento. É coragem, amor e transformação. Você com você e só. É deixar-se virar outro, este mais forte, confiante e que sabe que deu tudo de si.

Pela terceira vez coloquei um número de peito naquela prova, mas já era a quinta que eu colocaria no currículo. Entretanto, era uma quinta um tanto quanto…atípica. Olhei para os lados e confirmei o que eu já sabia: essa seria uma maratona solitária em que eu deveria dar toda a minha força para conseguir seguir em frente. Não seria fácil e esse pensamento me acompanhava desde São Paulo, mais precisamente um mês antes quando descobri um incômodo na coxa esquerda bastante preocupante. Com a permissão do fisioterapeuta, as milhares de sessões feitas e o diagnóstico de que não era uma lesão, passei a ficar mais confiante, mas ainda assim, com dor. Tive que me virar nos 30 segundos para conseguir dar conta de tudo, sobretudo, a minha mente que insistia em dizer que não daria.

Mas, por quê não daria? Eu estava firme. Eu havia treinado. Eu poderia conquistar isso…mesmo com tudo que estava acontecendo e que sim, complicam e tiram nossa concentração. No mês de maio tive muitas despedidas e perdas que abalaram a minha rotina, mas que de certa forma, me deixaram mais forte para a missão. Era o meu momento, eu tinha que fazer por onde! Me mantive calada, forte e inabalável. Mantive minha fé intacta e era com ela que – mais uma vez- eu colocava o número de peito rumo para trilhar 42km. Coloquei um sorriso no rosto e fui, sem medo, sem angústia.

Logo nos primeiros kms, senti um pouco de dores, porém me mantive focada e completamente apaixonada pelo mar do Recreio que cá entre nós, é a visão da perfeição no começo da prova. Não costumo olhar para os corredores que passam por mim, tento sair um pouco daquela dimensão para não forçar o ritmo. Por isso, foi o mar quem me deu forças e que me fazia acreditar que os incômodos passariam.

Confesso que até o km13 as dores eram muitas. Respirava fundo, concentrava e sentia o ritmo encaixar cada vez mais. Estava longe de ser o que eu imaginava que seria, mas era no momento o meu melhor e eu me sentia feliz por isso. Respiração, concentração e….Eu chegava a marca da meia-maratona muito forte e extremamente concentrada.

Foi então que encontrei com uma amiga que estreava na distância e que assim como eu, não estava de brincadeira. Por isso, decidi correr ao lado de Rita, minha “diva que corre”, a fim de me motivar e também de dar um gás na primeira prova de maratona dela.

Fomos juntas até o Elevado do Joá, a melhor parte da prova. Olhar para o lado e dar de cara com aquela imensidão, aquele mar maravilhoso é indescritível. Toda vez que passo por lá eu me torno outra pessoa, cresço e me transbordo de amor. Embora anteceda uma parte muito crucial do evento, é um momento que todos os corredores deixam de ficar tensos graças ao visual único e maravilhoso que só o Rio nos proporciona.

Os 30 se aproximavam e eu não os temia. E cá entre nós, é o momento que eu fico gigante na competição. Se até os 25km a minha cabeça diz que “talvez não”, é nessa hora que ela diz “agora estou pronta” – e eu evoluo. Não me lembro de ter corrido tão empolgada a subida da Niemeyer como aquele dia. Corria em um ritmo bom, aproveitava para me abastecer de gel e colocar no repeat Formation, claro.

Mesmo com as câimbras que me fizeram ter cinco minutos de dor intensa parada no mesmo lugar, eu sentia que nada me faria parar. No Leblon, contemplava mais uma vez o motivo pelo qual eu sempre corro essa prova: o visual que independente do clima nunca deixará a desejar. Em Ipanema, o sol machucava os meus olhos e eu que esqueci dos óculos, sofria em tentar continuar correndo com os olhos semiabertos.

Ao cruzar Ipanema rumo à Copacabana, lembrei-me da prova de 2015 e das minhas companheiras Nadjala e Mariana que me fizeram acreditar em mim a todo momento. Voltava a sentir dores, mas sabia que a reta final da prova deve ser feita de cabeça erguida, como bem diz Nad – e como eu e Mariana fizemos ano passado.

Tropecei e caí chegando ao Leme, esqueci de beber água em um ponto importante e pequei em centenas de coisas que se eu escrevesse não terminaria mais, porém acertei em manter a minha cabeça só com pensamentos positivos, boas lembranças e o sorriso do meu avô que é o que me mantém forte em provas longas.Já avistava Botafogo e o coração dava o primeiro sinal de que iria sair pela boca. Ainda não era hora, ainda tinha chão. Olhava ao redor procurando um rosto amigo, entregava meus géis e remédios a desconhecidos e confirmava: a medalha da quinta maratona estava prestes a ser minha.

E então eu fui. Sorrindo, de ponta a ponta. Feliz, intensamente feliz por aquele momento. Olhei para o lado e vi uma das minhas melhores amigas, Dani Germano, entrar no percurso e me puxar os kms finais. Tudo – de novo – fez sentido. Cada dor, cada ida ao fisio, cada momento de sono perdido, cada renúncia. Tudo. Cada parte do meu corpo doía, mas tudo em mim era gratidão. Com fotos e vídeo, pulei o pórtico, pausei o relógio e conquistei mais uma maratona. As lágrimas caíram depois porque não havia maior felicidade, maior entrega. De corpo e alma, eu fiz o que era preciso. Algumas partes acompanhada, mas boa parte eu e Deus, um coração que vibra a cada quilômetro de maratona – e uma Kauana renovada. A quinta maratona foi doída, intensa e perfeita da sua maneira e eu agradeço muito por ter tido forças para ir até o fim de cabeça erguida…como manda o manual!

Foto: MídiaSport

Os agradecimentos dessa prova são muitos e precisam ser feitos: antes de qualquer coisa, à minha mãe que não estava presente de corpo, mas de alma e fez com que os meses que antecederam a prova não me enlouquecessem. Essa foi para você, rainha! Ao meu treinador Augusto César e toda a Equipe Corre Brasil. Essa foi a nossa terceira maratona e eu jamais vou conseguir agradecer por tudo!

Ao meu fisioterapeuta Pietro e toda clínica Prevenir que novamente salvaram a pátria e me fizeram estar bem para o grande dia. Aos meus amigos e amigas que me aguentaram, que me fizeram acreditar que daria certo e que torceram por mim: muito obrigada, de coração! Obrigada ao melhor clube de corrida do mundo, o NRC, que me deu as melhores companhias e parceiros na jornada, à Nike Brasil, Ideal e Milk pela ajuda e apoio de sempre! Obrigada à Dani Germano que fez uma surpresa incrível e que nunca sairá da minha memória, aos amigos (obrigada, sr.James Chadud pelo suporte!), a equipe Spiridon (em especial Carlos Sampaio, meu grande amigo!), Gatorade e toda a organização da prova. Obrigada por mais essa!