Minha melhor maratona – Parte III

A cada passo rumo aos sonhados 42 km, eu sabia que algo grande se renovava dentro de mim. Paz, fé e muita, muita gratidão.

Nunca soube escolher tão bem uma pacer e também nunca pensei que ela fosse me ajudar tanto. Nadjala desde o primeiro km mostrou que eu poderia confiar nela e sem medo, enfrentar a maratona mais uma vez. E assim fomos juntas, do começo ao fim.
Tive a consciência de começar a prova em um ritmo que não me permitisse pensar nas minhas dores e isso funcionou. Após os 15km, fui aumentando o ritmo progressivamente até encontrar aquele em que meu treinador havia pedido. Sem sinais de dor na coxa, falei para a pacer chegara o momento de forçar.

Assim cruzamos a placa de 21km, e como em 2014 quebrei perto dos 25km, minha mente começou a se preencher com pensamentos negativos. Dentro de mim, uma voz dizia: “Você não vai conseguir de novo”, “Olha só, cuidado para as câimbras, elas vem ai’’. Gelei por dentro e forcei ainda mais o ritmo para afastar os meus próprios medos. A Nad compreendeu e fomos mais rápidas, junto de Mariana Passos que nessa parte da prova se juntou à nós.
Passei pelos 25km muito mais feliz de quando comecei a prova e fiz questão de passar pela placa de sinalização vibrando, sabendo que – para mim – uma parte da maratona estava vencida.

E chegava os temidos 30km, o famoso “muro”. Para mim, os 30km são tão especiais quanto os 42km e só quem passa por eles dentro de uma maratona, sabe o quanto são valiosos. São neles que as dores vem com toda força, tudo parece ser mais difícil do que já é, você se chama de louca, abusada, maluca e sem noção por correr uma maratona e etc… São muitos pensamentos contra e é nessa hora que dentro de você precisa ter sentimentos só a favor com o intuito de te impulsionarem para frente – e só.

Em 2014, quebrei nos 25km e também nos 35km e eu sabia que nessas duas passagens de km eu deveria entregar o dobro de minha vontade, o dobro da minha insistência. Se ano passado chorei com dores, esse ano cruzei as quilometragens das minhas quebras vibrando e agradecendo muito. Faltava pouco, essa maratona seria mesmo especial e eu ia fazer por onde!

Nessa reta final da prova, outra grande inspiração se juntou a mim: Rodrigo Richard, marido de Nad e que assim como ela, possui um currículo running invejável (estão nele Comrades, Unowaja, Uphill, Cruce e por aí vai…). De bike, Rodrigo conversava com sua mulher e comigo, incentivando e nos apoiando. Foi imprescindível essa ajuda porque, graças a experiência dos dois, eu não pude e nem sequer tive a chance de parar.Nad e Rodrigo eram insistentes nos argumentos e me provavam a cada passada minha, o quanto eu deveria persistir.

Chegamos finalmente em Botafogo, uma das partes mais difíceis da prova, esta que simboliza o fim e o começo. Simboliza o término de uma maratona e o começo de uma emoção sem fim. O coração já começou a ir para a boca, as pernas insistindo em reclamar e dentro de mim só um pensamento: “você está chegando”.

Então lá está a placa de 40km, olho para a Nad e para o céu do Rio de Janeiro. Mais uma vez essa cidade me abençoava tanto em uma competição. Faltava pouco e ao mesmo tempo, muito. Um passo de cada vez, respiração cada vez mais ofegante – e toda a luta começou a fazer sentido.

A cada metro cumprido, eu agradecia por toda força e por não ter quebrado em nenhum momento. E claro, por não ter sentido dor. Todo o pesadelo de treinar com incômodos, idas às fisios, sessões de choros intermináveis ficaram para trás: eu novamente era maratonista com todas as letras, emoções e com toda gratidão do universo!

De mãos dadas com Nad, fechei os olhos e passei mais uma vez pelo pórtico que me proporciona mudanças incríveis na minha vida, transformações que certamente eu não encontraria em outra quilometragem ou esporte. Todo o esforço naquela medalha, naquele único momento – e em meu orgulho em ter completado a melhor prova da minha vida até então.

As lágrimas vieram com força, ainda mais depois de avistar minha mãe que também emocionada, dizia que eu deveria comemorar por mais uma conquista. Mais uma vez eu cumpri o meu desafio, mais uma vez a maratona me ensinava o quão persistente devemos ser em tudo em nossa vida e o quão fortes nos tornamos se quisermos ser fortes.

Voltei do Rio de Janeiro com a certeza de que, 2016 também pode ser inesquecível mas que por até hoje, dia 26 de julho foi o melhor dia da minha vida.

Muito obrigada à todos que acompanharam a minha luta e torceram junto, em especial minha mãe,  (foi para você, de novo!), vó Malu, Mariana Passos (você é o meu maior orgulho, parabéns!), Nadjala e Rodrigo (sem vocês eu não teria conseguido, muito obrigada), Carlos Sampaio pela prova impecável, equipe MidiaSport, equipe Runner’s World, pacers queridos do NRC de São Paulo, amigos e familiares.

Nadjala e eu terminando a prova

Mariana Passos (agora maratonista!) e eu